E virou mesmo caso de polícia o "caso dos ingressos" no Palmeiras. O promotor Paulo Castilho, do Juizado Especial Criminal, pediu abertura de inquérito por crime de cambismo no clube por conta do repasse das entradas, com envolvimento de uma agora ex-sócia "protegida" do ex-presidente Mustafá Contursi, que será ouvido pelo MP, assim como Leila Pereira, dona da Crefisa que, pelo patrocínio, recebia os ingressos e os dava gratuitamente ao cartola, sem saber que acabavam revendidos.


A informação foi confirmada tanto pelo Ministério Público quanto pelo time alviverde.

"Ao tomar conhecimento pela imprensa de que a Crefisa distribuia ingressos gratuitos que eram revendidos por R$ 250, tomei a providência que sou obrigado a tomar pelo cargo que ocupo e pedi pela abertura de inquérito para investigar crime de cambismo, que já está nas mãos do delegado Sérgio, da delegacia do torcedor", disse o promotor Paulo Castilho ao ESPN.com.br.

Ele teve conhecimento do caso após reportagem exclusiva da ESPNpublicada na última sexta-feira. E o Palmeiras também aguarda as investigações.

"Tive informação de que o promotor Paulo Castilho entrou com um inquérito. É até melhor, pois tem mais rapidez. Na realidade, a gente precisava ouvir pessoas e entrar com o pedido com as autoridades. Temos interesse absoluto que se apure e se punam os culpados", disse o presidente do Conselho Deliberativo do Palmeiras, Seraphim Del Grande.

O fato vem ao mesmo tempo em que a "protegida" de Mustafá deixou o quadro de associados do Palmeiras, supostamente para preservar o ex-presidente de investigação que corre no Conselho alviverde.

"Serão todos ouvidos. Vamos investigar e apurar se aconteceu do jeito que saiu na imprensa e então tomar as providências. Isso é uma notícia grave, o fato de que a princípio eram comercializados 75 ingressos por semana, e 300 por mês, que eram gratuitos e não poderiam ser revendidos. A Crefisa patrocina o Palmeiras e distribuia gratuitamente, mas eram vendidos por R$ 250", acrescentou o promotor, ao ser questionado se chamaria Mustafá e Leila para depor.

"O Ministério Público e o Juizado do Torcedor estão em cima, pois esse é um crime recorrente no futebol", finalizou Paulo Castilho.

ENTENDA O CASO

A empresária Leila Pereira, dona da Crefisa, recebe uma carga de ingressos do Palmeiras em todas as partidas do clube por conta de acordo no pacote de patrocínio. Além da cota de permuta, ela também compra outra leva de entradas do próprio bolso direto da WTorre - que também tem sua leva de entradas - e distribui em ações sociais e outras atividades. Tais ingressos, contudo, não podem ser revendidos.

A cada jogo, a Crefisa repassava 70 ingressos para o ex-presidente Mustafá Contursi, apenas a troco de manter um bom relacionamento com o cartola, que é o mais influente no Conselho Deliberativo alviverde.

Entretanto, Mustafá repassava as entradas para uma - segundo várias fontes distintas do clube - "protegida" do ex-presidente. Essa mulher, então, levava os ingressos para um membro de uma das principais torcidas do Palmeiras, que os revendia aos torcedores organizados.

Só que, em determinado momento, a "protegida" de Mustafá parou de receber os ingressos. Acabou sendo ameaçada de morte pelo integrante da torcida que revendia as entradas aos organizados, em rusga que foi parar entre os conselheiros nos últimos dias.

Preocupada com sua integridade física, a mulher recorreu ao conselheiro Paulo Serdan, que é ex-presidente da principal torcida organizada alviverde. Ele, então, conversou com Seraphim Del Grande, presidente do Conselho Deliberativo, que confirmou a história à reportagem.

O presidente do Palmeiras, Mauricio Galiotte, tomou conhecimento sobre o imbróglio e está acompanhando de perto o desenrolar junto ao Conselho Deliberativo do clube.

Agora, Seraphim vai apurar as denúncias e qual o envolvimento de cada um dos envolvidos. Uma sindicância interna deve ser aberta e, se confirmada a história, há quem possa ser expulso do Palmeiras.

"Recebi a carta do patrocinador e estamos vendo uma acusação. Cita o nome de uma pessoa que entregava os convites, Eliane. Quando houve um telefonema da Leila para mim falando sobre esse caso, eu imediatamente, como o Serdan é conselheiro, pedi um encontro com ele. Confirmou que teve essa conversa com essa tal Eliane e esse rapaz que vende ingressos", disse Seraphim. 

"Pedi que a Crefisa me mandasse essa situação. Mandou, e agora vamos apurar o envolvimento das pessoas, até que ponto vai, se precisa abrir uma sindicância ou não", continuou o presidente do Conselho.

A dona da Crefisa, Leila Pereira, se disse "estarrecida".

"Não tinha nenhum tipo de informação sobre essa revenda de ingressos, mas como chegou essa informação é necessário que o Palmeiras apure tudo com o devido rigor. Eu nunca soube disso e assim que soube fiquei muito chateada e estarrecida. Entendo que o Palmeiras deve fazer uma apuração rigorosa", desabafou Leila.

Já sobre o envolvimento do ex-presidente, Seraphim afirmou que a denúncia cita apenas "uma pessoa (Eliane) que tem ligações com o Mustafá, uma sócia. Achava que era funcionária da Crefisa, mas dizem que em momento algum foi funcionária de lá, apenas estava lá e que tinha relação com o Mustafá. Vamos apurar isso".

O ex-presidente Mustafá também foi procurado, mas não quis comentar sobre o assunto. "Não tenho nada a falar. Também tinha ingressos que distribuía para pessoas do clube. Mas vou aguardar os acontecimentos e não tenho nada a falar no momento sobre isso".

Abaixo, veja notificação ao qual o ESPN.com.br teve acesso sobre o tema.

CONFIRA, ABAIXO, REQUERIMENTO DO PRESIDENTE DO CONSELHO:

"No dia 17.10.2017, atendendo à nossa convocação em caráter de urgência, compareceu o Conselheiro Paulo Serdan, na sala de reuniões da Presidência da SEP, onde declarou: - que foi procurado pela associada Eliane Fontana, que lhe informou que estava sob ameaça de pessoa ligada à associação a qual pertence o conselheiro Aquino, indagando se ele conhecia 'Alexandre que vende ingressos na Rua Turiassu'; - que o declarante questionou a associada sobre o motivo da ameaça, recebendo em resposta a afirmação de que a associada sempre entregava ingressos à Alexandre, pois recebia grande quantidade de sua amiga “Leila da Crefisa” mas que Leila, sem avisar, suspendeu a entrega à associada quando ela já havia se comprometido a abastecer as vendas que Alexandre fazia  e que esse passou a ameaçá-la, talvez por acreditar que ela estivesse fornecendo os ingressos a um concorrente de Alexandre na venda de ingressos na rua (fora da bilheteria); - que o declarante, após falar com a associada, procurou saber quem seria 'Alexandre que vende ingressos na Rua Turiassu' e acabou por encontra-lo e questioná-lo, recebendo as seguintes informações: ·         . que Eliane vendia a Alexandre os ingressos que recebia de “Leila da Crefisa”;

·         . que Alexandre revendia na Rua Turiassu para intermediários, os ingressos comprados de Eliane;

·         . que Alexandre havia sido pressionado pelos intermediários que realizavam a venda direta ao torcedor  na rua, dos ingressos que adquiria de Eliane e, na sequência, pressionou Eliane, que informou que não mais poderia fornecer pois havia parado de receber os ingressos dados pela Crefisa;

·         . que, ao ser informado sobre a ilegalidade dos procedimentos,  Alexandre se comprometeu a não mais procurar Eliane.

- que o declarante, após a conversa com Alexandre, se dirigiu, por livre iniciativa, aos patrocinadores do Palmeiras, para comunicar os fatos, que considerou graves, principalmente pela quebra da confiança e pelo aferimento de lucro com ingressos sem custo. Indagado se conhecia a associada, o Conselheiro declarou que a conhecia de vista, pois sua filha havia participado da bateria da escola de samba Mancha Verde, há anos atrás, mas que, no final de 2016  passou a vê-la constantemente ao lado de 'Leila da Crefisa' e, por essa razão, acreditava ser Eliane pessoa próxima de Leila, amiga ou funcionária. Indagado se poderia fornecer os dados ou o contato de 'Alexandre que vende ingressos na Rua Turiassu', informou que não possuía o nome completo, tampouco o contato, sendo que o mesmo poderia ser encontrado em dias de jogos do Palmeiras, na Rua Palestra Itália. Indagado se a declaração que prestou ao Conselho Deliberativo é a mesma que prestou à CREFISA e à FAM, confirmou, mas informou que não pretende requerer a abertura de sindicância, considerando que o fato é grave e que os Patrocinadores devem ser preservados. Por fim, o Conselheiro colocou-se à disposição para quaisquer esclarecimentos sobre os fatos.

SERAPHIM CARLOS DEL GRANDE Presidente do Conselho Deliberativo Sociedade Esportiva Palmeiras".