18/01/2022 às 10:00h
Dívidas das famílias devem consumir 26% do valor do Auxílio Brasil
Daniela Amorim e Cícero Cotrim

O aumento do endividamento da população brasileira a patamares recordes ao longo da pandemia de covid-19 deve subtrair do varejo e dos serviços mais de um quarto dos recursos que serão injetados na economia pelo Auxílio Brasil, segundo cálculos da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) feitos com exclusividade para o Estadão/Broadcast. O pagamento do benefício começa a ser liberado pelo governo nesta terça-feira, 18.

Dos R$ 84 bilhões que serão liberados pelo programa a aproximadamente 17,5 milhões de pessoas ao longo de 2022 (considerando o benefício mensal de R$ 400), 70,43% serão revertidos em consumo imediato, o equivalente a R$ 59,16 bilhões: R$ 28,04 bilhões gastos no varejo e outros R$ 31,12 bilhões no setor de serviços.

Outros R$ 21,62 bilhões serão destinados ao pagamento de dívidas, 25,74% do total de recursos liberados pelo programa, enquanto R$ 3,21 bilhões irão para a poupança, apenas 3,83% de todo o montante a ser transferido aos beneficiários. "Apenas uma parcela muito pequena da população tem condições de poupar", lembrou o economista Fabio Bentes, responsável pelo estudo da CNC.

O economista explica que o consumo imediato depende de fatores como massa de rendimentos, nível de preços e grau de endividamento da população. Quanto maior o grau de endividamento das famílias, maior tende a ser a parcela do orçamento doméstico destinada ao pagamento de dívidas, ressalta Bentes.

"A cada 1 ponto porcentual de comprometimento da renda, o estímulo ao consumo é reduzido em 0,71%. O último dado divulgado pelo Banco Central, referente a setembro de 2021, mostrava 30,33% da renda das famílias comprometidos com dívidas. No pré-covid, na média do ano de 2019, esse porcentual era de 24,7%. Em quase dois anos, avançou mais de 5 pontos porcentuais", apontou Bentes.

A CNC projeta que 35,9% da renda das famílias brasileiras estarão comprometidos com dívidas na média do ano de 2022. O levantamento considera todas as contas a pagar, tanto as que estão ainda por vencer como as que já estão em atraso. A perspectiva de piora é explicada pelas condições ainda difíceis do mercado de trabalho, pela inflação elevada e pela alta na taxa básica de juros, que encareceu o crédito para pessoas físicas.

Se o patamar de endividamento recuasse ao nível pré-covid (24,7%), o total de recursos do Auxílio Brasil destinados ao consumo de bens e serviços seria maior, de R$ 65,91 bilhões, calcula o economista da CNC. "Teríamos uma injeção de recursos no comércio bem maior. O consumo deixará de receber um aporte da ordem de R$ 6 bilhões por conta desse aumento do endividamento", apontou Bentes.

Impacto quase nulo na economia

Para o economista-chefe da Wealth High Governance (WHG), Fernando Fenolio, o Auxílio Brasil deve ter impacto restrito na economia em 2022. O analista estima que o programa deve contribuir com 1,3% para a variação real da massa salarial ampliada, que reúne os rendimentos do trabalho e benefícios sociais e previdenciários, este ano. Mas esse número é insuficiente para compensar o impacto negativo de 2,7% do fim dos pagamentos do auxílio emergencial.

"Não vai fazer grande diferença no resultado final, primeiro por causa da inflação alta, que acaba comendo parte dos rendimentos, e não é nada parecido em termos de escopo com o que foram as medidas de meados de 2020", diz Fenolio, que estima queda de 0,3% do PIB (Produto Interno Bruto) de 2022. "Em termos reais, a massa salarial ampliada deve subir 0,5% este ano, o que não é uma injeção de dinheiro a ponto de levar a uma expansão do consumo."

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